21 de maio de 2007

LESMA NA NAVALHA.

Ultimamente tenho exercitado um lado meu artístico ainda desconhecido para mim mesmo. As poesias sempre me foram um desafio. Eu formulei, certa vez, uma metáfora onde a literatura e as crônicas eram cachorros fiéis, que me vinham e aqui ficavam com sua fidelidade mórbida, até que eu os utilizasse. Já as poesias eram gatos, que percorriam o intelecto e ao menor sinal de desleixo, sumiam no mar dos meus projetos do meu universo paralelo. Para quem ainda não me conhece, saiba que eu construí, desde a minha mais tenra idade, um universo paralelo, onde reside tudo que eu crio e eu também vivo ali, sempre com dois palmos acima do chão.

Sem mais divagar, hoje eu gostaria de falar no artista brasileiro. Esse ser tão espetacularmente criativo e que sofre com o descaso da nossa cultura capitalista. Muito distante da luz da ribalta, existe uma gama de artistas escondidos pela sombra implacável da mídia de massa, da falta de recursos financeiros. Eis uma realidade, se houvesse no Brasil uma cultura de incentivo à arte popular, seriamos tão eruditos quanto os alemães, os franceses.

A realidade, como meu caro leitor bem sabe, não é essa. Hoje para um artista sobreviver com sua arte, precisa negar-se a si próprio, ser aquilo que a mídia demanda. O artista bem sucedido no Brasil é o anti-artista, que consegue sobreviver subsidiado pelos grandes empresários. A cultura televisiva no Brasil apenas contribuiu para a formação de uma elite de intelectualóides, que costumam promover debates mais áridos que três desertos sobre temas que interessam a grande massa, mas o fazem embalsamados por uma inépcia flagrante.

Os verdadeiros intelectuais do Brasil são tidos como transgressores e caçados como boi ladrão. Precisam se travestir no bom senso politicamente correto para conseguirem um lugar no coração do público de presépio. Sim, o público é de presépio, pois apenas reage ao que vê. O intelectual de hoje é tratado com um alienígena com anteninhas de vinil. Todo aquele que demonstra em público alguma erudição é logo taxado de homossexual ou um Napoleão de manicômio.

O artista que pretende ser fiel aos seus preceitos é enxovalhado por abalarem os alicerces das beatas de plantão. Hoje é preciso manter o sorriso amarelo para os figurões que vivem por trás dos grandes meios de comunicação para que se tenha a honra de mostrar sua arte. Em uma canção do Gabriel, o pensador, há uma frase peculiar: “O poeta é a pimenta do planeta”. Pois eu diria que o poeta de hoje não passa de um molho catchup, com sua doçura ácida e insossa de coroinhas das missas matinais de domingo.

O que eu pretendo dizer é que a poluição cultural vai disseminar o nosso povo. Causará mortes mais que o aquecimento global. Não será, todavia, uma morte física, mas sim a morte da alma humana. Tudo o que se verá como arte, será uma cópia carbono do que já foi feito e está mais do que arraigado na programação dos nossos sabores preferidos. Aquele que ousar destoar será espezinhado como barata de cozinha.

Outro dia, foi notícia que o presidente Lula estava presente no show do Chico Buarque em Brasília. Numa demonstração que os brutos analfabetos funcionais também apreciam a arte mais genuína brasileira. Ora, é notória a predileção do Chico pela “causa petista”. Vejam a aproximação de opostos que ocorrem hoje. O artista, intelectual Chico Buarque, que foi uma cabeça pensante da juventude dos anos 60 contra o militarismo, se vê compactuando, indiretamente, com a pornografia asquerosa que ocorre no Congresso. É exatamente o que resulta quando a arte e a política se unem. Um artista deve ser, acima de tudo, um isento, um sorriso, uma lesma que anda sobre o fio implacável de uma navalha e não escorrega, tampouco se divide ao meio. Isto para ser o artista da mídia. Mas o Chico há de poder ser o que bem quiser.

11 de maio de 2007

O CRIME DA CARIDADE

Alguns de meus leitores já me perguntaram o porquê do nome Hiato em Braile. Confesso que em algumas oportunidades fui incompetente na tentativa de me explicar. Deixei-os no vácuo, ou na estranha ilusão de ter compreendido os motivos para eu ter batizado esse espaço com tal alcunha. A explicação não tem um aspecto objetivo, até para que não sejamos idiotas da objetividade. Pois com esse nome eu procurei homenagear os nossos irmãos deficientes visuais. Eles que para interagir com o mundo, necessitam dos demais sentidos, que não a visão. O tato, dessa forma, é a interação mais intima que podemos obter com algo.

Quisera eu poder tocar tudo o que vejo. Pois os amigos cegos possuem nas mãos a comunicação com os olhos do coração. Nós, ditos normais, temos a grande dificuldade de observar a tudo com os olhos físicos. Esse fator dificulta fatalmente a compreensão do mundo. Penso que para melhor compreender as pessoas, o universo é preciso, sobretudo ouvir e tocar. Aquele que consegue perceber o hiato na linguagem braile é um privilegiado, um leitor critico e fugaz do mundo.

Fiz essa introdução meramente alegórica para chegar ao meu assunto obrigatório dessa crônica. Obrigatório porque estamos sendo bombardeados de informações acerca de um evento singular. A visita do sumo pontífice da Igreja católica em São Paulo. Fato esse que contribuiu para aumentar o caos de uma cidade despreparada para os grandes acontecimentos. Costumo falar a alguns amigos que São Paulo é a terra da garoa, onde um mero chuvisco nos apresenta o que é o destino inacessível.

Eis que me aproximo ao meu objetivo. Vejam que eu me preparo e também a você, meu caro leitor, para o que pretendo dizer. A igreja católica está caquética, com preceitos e conceitos retrógrados, que estão em rota de iminente colisão com as demandas da sociedade. Não cabe mais discutir a importância do uso do preservativo, tampouco dissertar sobre a castidade pré-matrimonial. Creio que seja um momento da igreja se ater com mais intensidade sobre assuntos mais urgentes e ululantes da atualidade, como o trabalho escravo, a destruição do planeta e da raça humana, a prostituição infantil.

Alguns hão de me objetar, dizendo que há sim uma discussão sobre tais temas. Mas a igreja o faz sem qualquer profundidade, com uma distância aristocrática e soberba. Aliás, essa é uma característica da maioria das religiões: há exacerbo na filosofia e uma escassez de ação. A força que possui o catolicismo, com seus muitos tentáculos dentro da sociedade, não permite a omissão, ou mesmo, que se seja apenas retórico a respeito das mais prementes questões humanas. Os sacerdotes haveriam de prestar serviços sociais, uma vez que são sustentados por ela. Deveriam partir para o meio da floresta para auxiliar no plantio de novas mudas para a Mata Atlântica, ou mesmo participar de movimentos sociais para extinguir o trabalho escravo.

Se há esse tipo de ação por parte dos sacerdotes, estes são como uma ilha cercada de pusilanimidade por todos os lados. Este assunto me faz lembrar de um dos personagens notívagos que eu criei. (notívagos, porque foram concebidos nas madrugadas insones). Eis que se trata de um padre que foi evangelizar em uma cidade pequena no nordeste brasileiro. Lá onde a miséria é um conceito tangível, irmã de todos. Este sacerdote realizava também trabalhos de assistência social, mas a falta de recursos era gravíssima. Numa atitude insana, o padre resolve leiloar todo o ouro que estava crivado nas paredes da igreja barroca, onde ele realizava o culto. Isto num intento de ajudar aquele povo que rezava com a barriga vazia diante do altar dourado em 18K. A conseqüência desse ato comunista só poderia ter sido um: o padre foi preso, excomungado e ficou na cadeia ao lado de assassinos e ladrões que, assim como os seus fiéis, foram vítimas da iniqüidade social. Mas esse padre procurou reagir, moveu-se, só esse fato já o permite a lívida eternidade.

2 de abril de 2007

A ADORADA VILÃ

Sempre que eu saio do trabalho e caminho para casa, vejo no trajeto um casal de namorados jovens em beijos sípidos, estalantes. Ali os hormônios pululam hieráticos, sem qualquer pudor. Curioso é que eles ficam sempre de pé no mesmíssimo lugar, perto de um ponto de ônibus, avexando madames pudentas que esperam a condução. Eu nem faço idéia de como é o rosto desses sexuados de rua. Esses beijos tão obscenos de hoje em dia me fazem lembrar dos cachorros no cio que se colam na rua para a reprodução. Hoje a crônica está lírica, romântica, não concordam? Caso não, vou me redimir e falar sobre um caso de amor diferente.

Trata-se, meus caros, do amor vitalício entre o brasileiro e a televisão. Não existe relação mais sincera e afetuosa como a do nosso povo com a programação das redes de TV. A esposa é capaz de negligenciar o marido e até mesmo os filhos para não perder o capítulo da novela das 21 horas. E o homem se esparrama como um tapete de urso no sofá tendo como companheiro fiel e inarredável o controle remoto.

Lembro-me de um amigo da família que ao assistir o Jornal Nacional respondia o Cid Moreira a cada “Boa noite”, num salmo responsorial não menos sagrados que o “Amém” que respondia ao padre nas missas de domingo. A TV de fato é um membro da família, é o grande irmão conjeturado por Orwell na sua obra “1984”, é a teletela que inclusive introduz a novilíngua.

Alguns críticos dirão que a televisão é a responsável pela alienação do nosso povo, o atraso dos nossos analfabetos. Pois eu acredito que há aqui uma relação especular inevitável. A TV é a nossa imagem e semelhança. Mas eis onde pretendo chegar: há nesse caso de amor uma vilã malévola, pior que Odete Roithman e Perpétua unidas e sedentas por vingança. Trata-se da Rede Globo de Televisão.

Este canal foi erigido pelo finado Roberto Marinho com intenções de ser uma televisão que entraria na casa de todos os brasileiros. E para isso, o nosso Marinho não mediu esforços e nem se importou com escrúpulos. Fez alianças e aliados políticos e sempre esteve ao lado do governo. Onde há o poder, está a tevê global. Outro dia tive a oportunidade de assistir o documentário produzido no início da década de 90 pela Rede BBC de Londres sobre o patriarca Marinho e seu império da comunicação. Sim, se pretendem saber, esse documentário motivou esta crônica por vós lida, meu caro leitor.

Mas eis que essa obra cinematográfica haveria de ser exibida nas praças públicas das cidades, nos estádios de futebol, antecedendo os shows de axé. O povo precisa tomar conhecimento sobre os bastidores dessa rede de tevê que manipulou e permanece nesse jogo maquiavélico para dominar as cabeças e opiniões dos brasileiros. Vejam que no documentário, rodado em 1993, há uma entrevista curiosa onde o nosso hoje glorioso presidente Lula ataca indecorosamente o império global, atribuindo a ela a sua derrota na eleição de 1989. E hoje, percebam como as mesmas figuras: Globo e Lula, se adoram, se cativam. Logicamente os tempos mudaram e os interesses, contudo, se travestiram com o interesse sobre o lado do poder.

O caso Collor foi a demonstração mais solene do poder de manipulação da Rede Globo. O político que era um mero governador de Alagoas, sem qualquer notoriedade nacional, se tornou um fenômeno de votos logo na sua primeira aparição nacional. Tudo muito bem arquitetado pelas organizações Marinho, que fizeram, inclusive, uma novela sob o título “O Salvador da Pátria”, a qual narrava a aventura de um caipira analfabeto que se tornava prefeito de uma cidade, num prodígio sucesso eleitoral.

Nos novos dias, quem tem a moeda da comunicação no bolso, é capaz de dominar um país. Roberto Marinho não deixa de ser um visionário, pois enxergou esse aspecto muito antes de qualquer brasileiro. Até mesmo de Chateaubriand, que promovia uma comunicação politicamente correta por meio da extinta TV Tupi. A Globo ainda utiliza a força e a qualidade de sua dramaturgia para lhe servir como álibi para a distorção de fatos, a omissão de tantos outros. Quiseram calar o povo no movimento das Diretas, tentaram abafar as denúncias do caso Collor. Mas não há venda que cegue um povo perenemente. E assim, quiçá, veremos a queda do império maquiavélico do finado Marinho.

18 de março de 2007

NOSSA MALDITA SINCERIDADE

Amigos, me impressiona as efemeridades desses novos tempos. A cada dia percebo o quanto as mudanças são instantâneas e indolores. Quando escuto falar sobre as relações humanas do passado, noto que havia uma tangibilidade nos sentimentos. Os namorados casavam-se, os casamentos faziam bodas de prata, de ouro. Hoje é tão comum os relacionamentos se dissiparem como castelos de areia na alta das marés. Os namoros até duram, mas não resistem à força do tempo, às tentações mundanas.

Entre os adolescentes e jovens a prática do “ficar” se institucionalizou de forma quase definitiva. Nada melhor que o anti-compromisso com beijos e mãos de polvo. E quando há alguma festa de grandes proporções, o que ocorre não é nem o “ficar”, mas sim o “beijo-tchau”. Não se sabe o nome, não se sabe sequer a cor dos olhos, e as bocas se encontram ofegantes e ávidas por dali saírem em busca de novas bocas, novas línguas. Não há tempo para nomes, telefone, apenas quer-se o contato físico relâmpago.

Confesso que sou dessa geração e apreciava essas práticas durante a minha adolescência. Mas confesso também que o fato de depois beijar uma desconhecida, a qual, mesmo depois de beijada, permanece desconhecida, me fez bater uma solidão cava, semelhante a de um estádio de futebol em plena manhã de segunda-feira. Esses desejos carnais urgentes e efêmeros nos transformam em pessoas sem qualquer identificação conosco mesmas.

Hoje os amantes são meros desconhecidos, inimigos íntimos. Se antigamente os compromissos se estendiam por anos e evoluíam até atingir a eternidade, seria por que éramos mais responsáveis? Leda ilusão. Naquela época, havia uma hipocrisia arraigada e reafirmada. Qualquer outro fator é capaz de sustentar um casamento por mais de dez anos, menos o amor. Não creio, com efeito, na legitimidade de um amor matrimonial eterno e inviolável. O ser humano é individualista demais para se suportar por tanto tempo assim. Somos seres criados para vivermos sozinhos. A vida social é uma mera forma de sobrevivência.

A família é outra instituição que tem sido solapada pelas novas relações sociais. Alguns saudosistas hão de afirmar que outrora as famílias eram mais sólidas, a exemplo dos casamentos. Todavia, volto a afirmar: naqueles tempos o silêncio dos sentimentos era uma convenção fortíssima. Hoje a sinceridade resolveu criar seu espaço na sociedade, e a sinceridade é o grande defeito dos virtuosos. Sobretudo as mulheres tornaram-se mais ativas, independentes, atacaram com toda sua força o paternalismo. Em suma, o fim da família é resultado do desgaste do paternalismo.

Há que se escolher perpetuarmos a nossa tradição respeitosa, silenciosa, introspectiva. Ou continuarmos com a sinceridade maldita e obtusa que destrói a hipocrisia e ataca, assim, as todas poderosas instituições da família e do casamento. Seria a batalha final da voz versus o silêncio. É a famosa e inevitável globalização...

28 de fevereiro de 2007

ANDRÓIDES SILICONADOS

E mais um carnaval se foi. Terminou com o sentimento da catarse tão fundamental ao nosso cotidiano. Neste último, visitei Diamantina. A bela cidade dos diamantes, ruas de pedra- sabão e casas barrocas coloniais. Tamanha a efervescência daquele local nesta época, que disfarça a pacatez que lhe paira nos dias corriqueiros. Desta feita, pude compreender que o carnaval é a mais honesta das festas. Não existe neste festejo o cinísmo do Natal, a falsa sensação do Reveillon. No Carnaval agimos como oferta nossos instintos básicos.

Fiz essa introdução para chegar onde pretendo. É também durante o carnaval que o físico, o carnal está preponderantemente em evidência. Nesse momento não existe o que somos, mas sim o que aparentamos ser. Há no meio da folia uma supervalorização pelas formas e um esquecimento cavo dos olhos e da alma. A nudez carnavalesca é tão clássica, quanto às esculturas renascentistas ou os profetas de Aleijadinho.

Não sejamos tão hipócritas a ponto de afirmarmos que a estética é fútil e superficial. Sem dúvidas que é efêmera, mas não indispensável. Todos temos referências de beleza e através delas guiamos nossos instintos sexuais. Esse dado está arraigado no ser humano e não há qualquer possibilidade de alguma mutação. O grande fato, o mais cruel de todos, é que há uma rotulação exacerbada através da beleza. O preconceito nesse aspecto, reina com soberania, e onde há preconceito, há sempre o equivoco.

Certa feita, publiquei um conto em um fanzine que falava sobre uma menina de uma fealdade absurda. Clarabela se chamava a pobre. No conto, que na verdade era uma crônica, eu costurei uma metáfora sobre as flores. Estes seres que concentram tanta beleza e odor eram as antagonistas da pobre Clarabela. Vejam, meus caros, que Clarabela se apaixona por Thomas, um homem que conhece pela Internet. Ela tem essa paixão correspondida e, num momento clímax do primeiro encontro, descobre que aquele homem é cego. Sua vergonha pela feiúra tornou-se tão menor, tão insignificante perante a deficiência visual de Thomas. Ela descobre que as flores não são suas inimigas, mas sim ela própria. Naquele texto, eu não citei uma reles, uma escassa sequer característica física de Clarabela. Não a fiz magra, gorda, alta ou baixa. Deixei que o leitor fizesse a própria feiúra dentro de si e pudesse, quem sabe, refletir sobre o motivo de padronizar seu conceito estético.

Nesses tempos de silicones, nada melhor que seios sinceros e bocas de carne humana. O ser humano, sobretudo as mulheres, vem se mutilando, tornando-se andróides siliconados, sempre no intento óbvio de instigar a libido alheio. Essa geração Mc Donald’s que não aprecia carnes diferenciadas, preferem dormir ao sabor do papelão de um Big Mac.

Somos todos vítimas e algozes, neste caso. A indústria da estética perpassa sobretudo na nossa educação primórdia, nos conviveres sociais. A atitude a se tomar é individual. O Carnaval deve e sempre continuará a ser a festa honesta, epilética. É parte integrante e fundamental da nossa cultura. Não veremos alguém buscando conhecer a alma alheia no meio da folia. Mas vale o reforço de atenção, para que procuremos deixar de ver com os olhos físicos e, assim como Thomas, se apaixonar por Clarabela, a antagonista das flores.

30 de janeiro de 2007

SEGUNDA VIDA

Caríssimos, vivemos no limiar de uma revolução na humanidade. No entanto, não haverá derramamento de sangue e nem marias antonietas decapitadas, acalmem-se. Trata-se do advento da era digital, o qual pretende proporcionar uma evolução nas relações humanas. Não é de agora que as questões tecnológicas são amplamente discutidas e analisadas como os novos ovos de colombo ou os recém descobertos caminhos para a Índia. A verdade é que estamos repletos de velhas novidades. Refluxos de invenções envelhecidas pela velocidade efervescente das informações.

A voracidade da tecnologia permite que esqueçamos cedo a nossa essência mais fundamental. Preocupamos-nos com o novo lançamento da Apple, mas negligenciamos os mendigos na rua. Eis onde pretendo chegar. Somos hoje o Homo Digitalis, mas continuamos tendo ulceras e cefaléias aterradores. De que adianta criarmos um perfil no orkut, onde somos tudo o que queremos ser, se a nossa essência humana anda cada dia mais degradada, medíocre?

A vida digital tem por pretensão sanar nossas carências, aproximar pessoas. Mas vejam, meus caros, que os efeitos colaterais são terríveis. Em pouco tempo não existirá mais o olho no olho, o calor da pele a roçar. O sexo virtual e seguro será uma modalidade óbvia e ululante. Eis o grande risco: e o ser humano, e a preservação da espécie, onde residem nesse processo?

Essas novas relações humanas assumem perspectivas cada vez mais ameaçadoras. Há o risco iminente de ocorrer um colapso social, uma crise de identidade coletiva. A última velha novidade é um jogo virtual chamado Second Life, onde você tem, numa tradução literal do inglês, sua segunda vida. Vejam, caríssimos, que a tecnologia nos permite um adendo, um prolongamento do nosso ser. E o mais interessante nessa história é que podemos vestir a máscara que melhor nos convier para participarmos dessa nova vida. O homo digitalis criou também mais um disfarce virtual para suas frustrações.

Chegaremos, assim, a um lugar obscuro e inadiável. Numa interiorização, perceber-se-á que os avatares e profiles contribuíram para cavar ainda mais o abismo entre as pessoas. O homem que já se alienou durante décadas no trabalho ou pela TV, verá seu íntimo invadido por hackers destrutivos e adwares maliciosos. A Internet é o grande refúgio para os idiotas. Aqui reside um problema inequívoco. Uma sociedade que se preze necessita de grandes homens e de idiotas. Não se faz um país só com gênios e nem só com idiotas. Pois no mundo virtual há somente notáveis, dignos de um Prêmio Nobel.

Viajo nessas palavras, mas gostaria de falar sobre João Guimarães Rosa, o maior escritor de nossa língua. Não conseguiria dormir essa noite se não fizesse qualquer menção, mesmo que escassa, sobre esse gênio estilístico. E o que diria o poeta roseano sobre esses tempos modernosos? Talvez, no seu rebuscamento, falaria da alma humana que navega por mares virtuais em busca da redenção de seu espírito. Em outro momento, falarei mais sobre esse mineiro inesquecível. O grande homem injustiçado. Haveria de se sugerir um Nobel póstumo à Guimarães Rosa. Fica o meu casto protesto.

19 de janeiro de 2007

O ÚLTIMO IDEAL DE UM POVO

O ano era 1985 e o Brasil esperava por um milagre, um mártir. Não era Roque Santeiro que fazia sucesso no horário nobre. Ah as novelas de antigamente! Possuíam a magia de serem assistidas na casa da minha tia Ana, enquanto os adultos jogavam baralho na cozinha. E eu me arrepiava ao escutar Zé Ramalho cantar guturalmente sempre que surgia o lobisomem na cidade de Asa Branca.

Mas o santo o qual me refiro era Tancredo. O mártir da democracia, a luz de esperança depois daqueles tempos recrudescidos da ditadura mílitar. O povo se reunira na rua, nas passeatas em torno de uma frase, de um slogan “Diretas já”. E eu, com cinco anos, já me aventurava no mundo das letras. Óbvio que elas eram ainda apenas letras que formavam palavras. Algo tangível, quase como um brinquedo. E aquela frase era, para mim, um sonho acústico. Gargalhava quando a escutava no programa do Agildo Ribeiro, o qual era uma paródia com os políticos da época.

Mataram Tancredo. Minha irmã, na sua inocência crédula, chorou naquela manhã quando o Brasil tomara conhecimento do assassínio do ultimo grande homem. Mineiro como eu e como toda minha família. Eu, no mundo dos meus cinco anos, vivia em Formiga, e tinha, comigo que era tudo uma brincadeira. Tancredo era um nome. Talvez o mais representativo da minha infância. Ele fazia parte da coleção de nomes fundamentais que todos temos quando se é criança.

Naquela mesma ocasião, Fafá de Belém cantou o Hino Nacional com toda a sua malícia e doçura na interpretação. Fez chorar 130 milhões de brasileiros. (não faço idéia se essa era realmente a população brasileira daquela época. Esse número é meramente ilustrativo.). Naquela época ainda se chorava por um homem público. Talvez tenha sido a ultima vez na história que o Brasil sentira a dor esganiça de se perder um quase presidente.

Tancredo, que eleito fora, não chegou a assumir o poder. Os militares, num derradeiro golpe covarde, mataram-no e simularam sua morte natural. Anunciaram-na em 22 de abril, para que esta se coincidisse com o dia de Tiradentes. Mas Tancredo já estava morto. Ele morrera não só fisicamente, mas sua alma já havia sido trucidada pela extinção de seus ideais. Sua morte foi anterior a si mesma. Tenho para mim que ele não se alimentava de comida como um ser humano normal. Tancredo se alimentava de ideais. Era grande demais para essas coisas prosaicas.

Ele não se elegeu pelo voto direto, mas anunciava a abertura de pleito eleitoral para a eleição do seu sucessor. Era, sem dúvida, a encarnação de um movimento, um ideal. O ultimo grande ideal do brasileiro foi o “Diretas já”. Hoje somos um povo sem ideal, alienados por uma pseudo-democracia, manipulados pelos meios de comunicação em massa.

O ano era de fato 1985, mas deveria ser um ano eterno. Ah se vivêssemos todos os anos um 1985. Época também do surgimento da Legião Urbana, em que Chico Anísio ainda fazia rir. O último ano em que o brasileiro se sentiu de fato uma nação. Cada povo precisa de uma causa para ser um povo. Hoje somos uma sociedade anônima, monopolizados nos apartamentos, dirigidos pelo controle remoto.

18 de janeiro de 2007

O PIOR TIPO DE MACHISMO

Alguns intelectuais de carteirinha (aqueles com o Marx de bolso) condenam de forma veemente a qualidade da nossa TV aberta. Percebam que a veemência permanece como característica irrefutável desses amigos. Todavia, há um movimento que ataca as telenovelas e agora o deprimente Big Brother Brasil, como sendo este último uma apologia à preguiça e à luxúria. Mas vejam, meus caros, que eu hei de comungar dessa opinião. No entanto, percebo que a direção da crítica está equivocada. O problema dessa questão não é a TV, mas sim o público que a assiste. A TV brasileira é mais uma vitima da nossa cultura.

Reparem que o papel dos ditos intelectuais é o de antinarciso, que cospe na própria imagem. Eles são os idiotas fundamentais que pretendem questionar as verdades consideradas absolutas. Mas não é bem sobre isso que eu pretendo falar. Hoje tenho o intento de tratar de um assunto bem mais agradável aos olhos dos meus leitores, se é que eu os tenho. Quero falar sobre a nossa mulher contemporânea. Digo contemporânea por uma convenção lingüística, pois a mulher está sempre um passo a frente da modernidade. Ao menos aparentemente.

A mulher atual vive um dilema bastante óbvio. A evolução da posição feminina na sociedade é flagrante. Entretanto, há o resquício da submissão paterna, do machismo arraigado. O fato é que a mulher é o pior tipo de machista. Elas possuem o cinismo de trabalharem em busca da sua independência financeira, mas consideram inadmissível sustentar o próprio marido. A querelância por direitos iguais produziu a classe das feministas, as quais são frutos da negação aos paradigmas da ação masculina.

Toda negação é por si só insustentável. Assim as linhas filosóficas que possuem como fundamento a negação, convivem com o dilema da existência do seu fruto de recusa. Os ateus, agnósticos, apolíticos se contradizem ao denegar, pois só se exonera o que está sob os próprios narizes. As feministas são a personificação insofismável desse conceito.

Outro dado interessante é que a mulher entrou no mundo masculino com uma sede inominável de competir e vencer. Esse dado culmina com a extrema necessidade da mulher de sobressair-se perante as demais do mesmo gênero. Eis o pecado mor, o erro crasso. A mulher desde já está condenada ao fracasso, pois o homem é extremamente corporativo. Nessa guerra de sexos, a vitória é de quem se auto ajudar, e não de quem seguir sozinho numa luta árida e infeliz. Não há amizade sincera entre mulheres. No mundo feminino impera o cinismo acima de tudo. Toda mulher tem a tendência à dissimulação, à utilizar subterfúgios nada ortodoxos para conseguir seu almejo.

Todavia há que se reverenciar a coragem de tantas mulheres que subverteram os preconceitos, determinaram o seu lugar numa sociedade hieraticamente machista com a mesma competência de quem tem o segredo da vida nas suas entranhas. E nós, homens, não cogitamos viver sem esse mal indispensável.

12 de janeiro de 2007

AO CÂNCER ASPIRINAS

Quando se aventura a escrever crônicas, uma gama de assuntos se torna latentes na cabeça. Alguns até berram para serem logo concebidos e verbalizados nessa folha de papel virtual. O grito é tão insistente que até me atrapalha o sono. Esse texto, por exemplo, foi arquitetado durante uma noite insone, perambulando pelo apartamento em busca de comidas proibidas para esse horário.

Desta feita, pretendo discorrer sobre um assunto o qual meus amigos fundamentais já se fartaram de escutar. Alguns até hão de me chamar de obsessivo. Não me importo. Afinal nada se constrói nesse mundo sem obsessão. Uma nação não se constitui sem obsessão. E o que seria de Napoleão, sem suas idéias obsessivas?

Estou me prendendo no secundário em detrimento ao essencial. Eis onde quero me ater nesse momento. Vivemos nós, brasileiros, num país onde reina o eterno provisório, em que tudo é para agora e nada é para sempre. Não por acaso tivemos em nossa breve história de civilização inúmeras moedas, várias constituições e aquela que está em vigor possui centenas de emendas. A palavra mais adequada seria “remendos”. Acostumamos-nos a sempre a remendar as falhas do passado, mas com band aid já velho e gasto.

Atribuo essa cultura a uma característica congênita, herdada dos nossos colonizadores. Os portugueses se encaminhavam ao Brasil apenas para retirar-lhe a seiva preciosa e retornar para o velho mundo. Nunca lhes passou pela alma fazer desta terra uma morada eterna. Quem de lá vinha e por aqui ficava eram, geralmente, aqueles que não tinham escolha. Os exilados, presos políticos e as escórias da sociedade lusitana. Dessa forma, pode-se concluir que o brasileiro é fruto da miscelânea do restolho portuguesa, com os valentes, porém escravos africanos e ainda com uma pitada do que restou dos nativos índios. Em suma, somos o produto do resto.

Não quero aqui, amigos, fazer apologia ao nosso complexo de vira-latas, como diria Nelson Rodrigues. Mas há aqui uma realidade, quase insofismável.

E assim construiu-se uma cultura. Com hábitos tenebrosos de se tentar curar o câncer com aspirina. O atual governo é um exemplo tenaz desse aspecto. Os chamados programas sociais, apenas servem para tentar jogar uma fina camada de asfalto em um buraco profundo e que, fatalmente, voltará a ser um buraco - Faço dessa metáfora uma realidade. As estradas brasileiras também são vitimas do eterno provisório.

Programas sociais devem ser utilizados apenas como complementares de um projeto de reestruturação radical da sociedade, a qual deve se começar pela educação impreterivelmente. A maioria, senão todos, os problemas sociais do Brasil derivam da deficiência do processo educacional. Tal sistema foi concebido durante o período militar e ainda guarda resquícios dessa época triste da nossa história. Vejo que é fundamental que a criança, desde petiz, aprenda arte, fique na escola o dia todo. E as professoras deveriam ser tão bem remuneradas quanto médicos, já que são profissionais tanto quanto fundamentais.

Certa feita, propus, numa conversa entre amigos, que a solução real para o país seria uma mutação genética. Era preciso mudar o brasileiro desde o seu DNA. Alguns rilharam os dentes: “nazista”. Já me defendo. Não prentendia uma seleção étnica. Mas confesso que desisti da idéia. Até por que era fantasiosa demais. Gostaria sim que se cuidasse da próxima geração, pois esta atual está perdida, não há salvação. Mas as crianças, ah as crianças. Estas precisam de uma atenção sobremaneira.

18 de dezembro de 2006

MOISÉS SUBDESENVOLVIDO

Eis que se achega mais uma festa natalina. Há tantos significados para esse momento. Para mim, talvez, um instante de rechaço das atividades laborais. Para outros, um momento em que o consumismo se inflama de forma jacunda, inescrupulosa. Pois eu tenho aquelas convicções que me refletem: o Natal é a festa mais anticristã que existe. Sobretudo no Brasil, é um momento onde as diferenças sociais ganham uma terceira dimensão, com efeito. Mas basta de polêmica. Hoje não é sobre isso que eu pretendo falar.

Pretendo sim, me repetir. Porém sem me tornar repetitivo, se é que me entendem. Quero falar sobre o assassínio descarado que sofre a nossa língua portuguesa. Durante os passeios de jangada pelos sites de relacionamento, fóruns e chats na Internet pode-se notar um apedrejamento fatal dos verbos e adjetivos, como uma Maria Madalena sem Jesus Cristo (cá estou eu falando dele novamente).

É fato que o nosso grande antagonista nessa história é o analfabetismo, ou o analfabetismo funcional que a maioria da nossa gente agrega. Sim, o brasileiro é um analfabeto atávico e insubmersível. Mas esse drama estava escondido, recolhido pelo silêncio e a passividade. No entanto, com o advento das comunidades virtuais, o brasileiro sentiu-se um Moisés pronto e já seco diante de Michelangelo no crucial e histórico momento em que o gênio disse: “Parla”.

E Moisés emudeceu-se. Teve a ternura e o pudor inarredáveis daqueles que não tem o que falar e assim se calam. Já o brasileiro, na sua latinidade crônica, subverteu seu criador. A criatura desbancou-se a falar aos borbotões e mostrar toda sua literatice e pasmou o gênio.

Alguns objetarão, dizendo que esse fenômeno é a evolução da língua portuguesa. Pois eu vos digo. O português não é uma língua para “bate-papos”. É uma língua reflexiva, conjugada, concordada. Requer do seu orador uma introspecção, um exercício mental para ser emitida. O português não é língua de analfabetos subdesenvolvidos. Por assim dizer, não é a língua de um brasileiro autêntico. Se insistimos em falá-la é por uma cristalina teimosia, bem inerente ao povo latino.

Não imagine, meu caro leitor, que eu me incluo fora desse aspecto. Sou também um Moisés subversivo, tagarelante. Admito meu mau português e o faço sem nenhuma falsa modéstia. A verdade é que o escritor, ou pretenso escritor brasileiro sofre de uma solidão cava. Somos um povo que escreve mal para um povo que lê ainda pior. E agora, com a liquidez efêmera da internet, a leitura tem se tornado cada vez mais secundária. Não é preciso ler, apenas olhar.

Ai de nós, moiseses subdesenvolvidos, esculpidos pelos antigênios das mídias de massa. Ai do futuro de um povo que não cultiva e cativa seu bem máximo e inalienável: a língua.

22 de novembro de 2006

A ESQUINA IMAGINÁRIA

Consultei o relógio antes mesmo de descer. Era 4:30h da manhã. Chegava eu de Belo Horizonte no Terminal Tietê. Os serviços de metrô e até mesmo do terminal ainda não funcionavam. Fiquei ali aguardando, assentado num daqueles muitos bancos. Quando enfim abriram o acesso ao metrô, uma pequena multidão se encaminhou para a escada rolante. Ao chegar próximo, vi que a escada estava ainda em manutenção e rolava ao contrário. Uma pequena platéia assistia à escada. Pela primeira vez presenciei uma escada com espectadores. Era a estrela daquele momento, celebridade instantânea como tantas. Quando, finalmente, os degraus se puseram a funcionar, só faltou àquela audiência ovacionar com palmas a escada. E aqueles paulistanos, ou não, correram em direção ao metrô.

Fiz essa introdução acima para chegar ao raciocínio: uma característica fatal dessa terra, dessas pessoas, é a maratona. Não há paulistano que não corra ao menos uma meia São Silvestre diuturnamente. Viver em São Paulo é correr para tudo e contra tudo. Mas eu vos digo: o paulistano corre ao encontro daquilo que o corrói.

Desde que aqui cheguei nutria uma curiosidade mórbida. Afinal, o que tinha de tão especial no cruzamento da Ipiranga com a São João? O que aconteceu com o coração do Caetano? Eis o que descobri, meus caros, essa esquina sequer existe. Trata-se de um devaneio, uma sátira sobre São Paulo. Caetano faria uma sátira? Perguntariam alguns. Repito, sim. Caetano é um grande brincalhão. Digo isso com todo respeito ao artista e ao homem.

Os idiotas da objetividade afirmarão com sua veemência: Mas existe sim essa intersecção. Eu já fui lá e vi. Estava lá, com seu lixo acumulado no canto das calçadas, com suas crianças nuas praticando malabares em busca da moeda da consolação. Pois eis aqui a verdade: A esquina Ipiranga com São João não existe mais, pois faleceu. Sua morte foi lenta e dolorosa, até que se escoou todo sangue. Esta esquina separa o samba-canção das baladas funks, a lerdeza dos bondinhos da veemência dos metrôs.

O centro de São Paulo é o retrato da fúria devastadora dessa cidade. Para se ver de longe é um local aparentemente agradável, com edifícios antediluvianos e avenidas arteriais. Todavia, o paulistano correu dali, como quem corre rumo ao próprio algoz. Afinal, o dinheiro fugira desse lugar. Ao passo disto, construíram avenidas, viadutos, arranha-céus. Mas toda essa pujança criou uma aridez de três desertos. E ainda agora querem acabar com os out doors, uma das poucas cambiantes que destoam do cinza pétreo dos edifícios.

Um dia, um amigo veio me dizer: “Se São Paulo se separasse do Brasil, seria uma Espanha sul americana”. Confesso que hesitei e também cogitei a possibilidade separatista. Mas vejam, conclui que se São Paulo fosse um país, seria sim talvez um novo Japão: rico, porém sem a irisada face do Brasileiro.

Quem fez São Paulo não foram apenas os paulistanos, mas os muitos imigrantes que aqui habitam. Pessoas que saíram do calor de sua família para entrarem na pulsação frenética dessa megalópole. Mas São Paulo acolhe a todos. Com uma sisudez britânica, sim. Mas é só deixar o tempo fluir, as garoas molharem, que o imigrante é capaz de sentir algo, lá no fundo do coração, quando cruza a famosa e feérica intersecção paulistana.

16 de novembro de 2006

O FENÔMENO

Uma livraria é deveras um local agradabilíssimo. Notória é a satisfação que sinto quando caminho por algumas delas. Um ambiente que transcende cultura, exala sabedoria, desprende o raciocínio. Os passeios nas livrarias deveriam ocorrer entre famílias, como se fora um domingo na praia, com crianças montando castelinhos de livros e o pai se espreguiçando num dos sofás das salas de leitura.

Eis que nos últimos tempos, venho notado um fenômeno entre os títulos expostos nas prateleiras. Há um assunto em comum, cogente entre as novas obras literárias. Todas vindouras do fenômeno que se compreendeu o “Código da Vinci”. Eis que nesses tempos, tal obra tornou-se a vedete nas bibliotecas particulares, nas mãos dos usuários de ônibus e metrôs. Fato esse que me causou uma exclamação: “O brasileiro está finalmente lendo!”.

Fui buscar compreender o fato, e cheguei a um senso comum: A questão não é o brasileiro que está reaprendendo a ler, mas sim a possibilidade da destruição de um mito é que fascina qualquer ser humano. Eis onde pretendo chegar. O “Código da Vinci” não é um fenômeno apenas por ser uma obra literária relativamente boa, mas sim porque trata de açoitar a imagem de Jesus Cristo.

Sim, meu caro leitor, cá estou eu novamente falando dele. Não poderia ser tão diferente. Jesus Cristo é um sucesso mercadológico nababesco. Tudo o que se refere, ou pretende se referir a ele, é um best seller nato e hereditário. Mas o “Código” procurou um oposto. Destrinchou a obra de Leonardo da Vinci e buscou nela as manchas do passado obscuro de Cristo. Esse assunto somado a uma linguagem pretensamente científica foram o suficiente para embalsamar o produto entre os mais vendidos no mundo.

Há muito que o cristianismo se tornou um negócio amplamente vantajoso. O temor humano, suas crises e misérias são demanda para todo esse business, pois a crença em um salvador, um messias redentor é a esperança que muitos (milhões) se agarram para não saltarem do oitavo andar. Mas eis a constatação: o cristianismo de hoje nada tem a ver com Jesus Cristo. Ele foi um grande líder, um sindicalista de Jerusalém, um sem-terra nazareno. O que Cristo pregou na sua passagem terrena resume-se na solidariedade humana e na igualdade entre os povos. Os adendos bíblicos foram criados pelos evangelistas e disseminados pelo mundo. Atribuíram a ele alguns milagres e foi o bastante para que ele fosse aclamado como o “salvador”.

Vejam bem, meus caros, não discordo da possibilidade de que Cristo tenha sido um paranormal, um espiritualista. O fato que realmente contribuiu para o crescimento do cristianismo e a seqüente destruição de sua essência foi a ganância humana. Sim, desde vivo, Jesus atraia multidões. Seus discípulos enxergaram naquilo um grande negócio, uma forma de se locupletar da crença do povo. E assim, fundaram a igreja e se propuseram a dar prosseguimento ao discurso de Cristo. Conseguiram assim o subsídio do povo com a promessa de que “Ele voltará”.

Nesses nossos dias observamos toda a veemência dos pastores evangélicos, todo o discurso sutilmente persuasivo dos padres. Porém todos são apenas filósofos que encontraram na religiosidade uma forma de se sustentarem com sua retórica. Minha crítica não vai para os fiéis seguidores cristãos. Em absoluto. Eles são vítimas. Mas sim, vai para os padres de passeata, para os políticos coroinhas. E caminhando mais a fundo, essas palavras vão para os responsáveis por dois milênios de repressão sexual (sobretudo o feminino, pois as prostitutas não pagam impostos), vão também para os defensores da hipocrisia dos casamentos, para aqueles que pregam o sacrifício em busca do reino dos céus. E claro, não podiam faltar os mais abjetos: aqueles que cobram dízimos obrigatórios sob a ameaça de uma condenação eterna.

Vejam que é minha pretensão não vos cansar com delongas, meus caros leitores. Admito, faço o mea culpa, pois vejo me excedi nas muitas palavras.

11 de novembro de 2006

MARX DE BOLSO

Quando Jesus Cristo afirmou “Diga-me com quem andas, que eu te direi quem és”, houve aqui a institucionalização do preconceito. A sabedoria do homem de Nazaré é notória. Afinal, como explicar os dois mil anos de cristianismo? Mas aqui ele, até mesmo ele, teve uma infeliz colocação. Vejo Jesus Cristo como um grande líder, um homem que marcou seu tempo. Mas vejam, leitores, até o grande homem comete equívocos.

Fiz essa breve (e sei polêmica) introdução para falar sobre os fenômenos sociais. O homem à partir de que começou a viver em sociedade nunca mais foi o mesmo. Temos uma essência solitária, introspectiva. Vivemos em sociedade apenas e somente por sobrevivência. Esse conflito entre o homem só e o homem social é marcante em nossa espécie. Temos em nós mesmos marcas depressivas, profundas, que são mascaradas por sorrisos sociais. Ao que se percebe, o homem nutri um medo absurdo de si mesmo. Não nos aturamos como somos. Precisamos a cada momento nos travestir de ilusões para sermos compreendidos e aceitos por um grupo. Tudo para não nos depararmos conosco mesmo no espelho.

E quando a solidão nos é inexcedível, surge a perspectiva de pequenos grupos, aos quais se convencionou chamar de tribos. Elas possuem a missão de aglutinar seres perdidos nesse mundo em busca de identificação. É interessante notar que esses cardumes humanos exigem preceitos e regras. Há que se pensar assim, que se vestir assaz, que se comportar assado. Ocorre nesse instante uma sublimação do individual em busca da carteirinha acessiva às tribos.

Mas agora chego onde pretendo. Vem surgindo uma modalidade de tribos perigosa, assustadora. Formada por jovens egressos de universidades os quais possuem, cada um deles, o seu Marx de bolso, sua carteirinha do niilismo com foto 3x4. Pessoas que se acastelam num idealismo infundado, e agem com uma pretensão intelectual patética. Geralmente, são partidários do socialismo utópico, mas leram apenas as orelhas dos livros de Engels. São o que a categoria dos catedráticos chamariam de cultos de enciclopédia. Eles não defendem uma idéia, mas sim uma pose. Muitos deles se dizem ateus, herbívoros, naturalistas, macrobióticos, mas escondem uma hipocrisia repaginada e, geralmente, mascarada pela sua veemência ao falar.

O que mais apavora é que esses jovens são pretensamente os futuros deputados, ativistas, executivos. Eles farão o Brasil do futuro. Discutirão a revolução do proletariado encerrados em uma sala carpetada e com um ar condicionado polar, e lindamente instalada num edifício com um chafariz no rol de entrada. Os neo-marxistas são consumistas vorazes, porém, jamais abandonam o discurso inflamado sobre a fome no nordeste. A profundidade de seus raciocínios se confunde com a de um pires. E outra característica são as freqüentes citações. Os jovens revolucionários do século XXI adoram declamar citações. Até mesmo quando lhe dizem um inocente “Bom dia”, eis que vêm os dois pontos e as aspas pedantes. Isso sem sequer compreender a complexidade do que se proferiu.

É por isso que eu tenho a convicção de que a leitura deve ser sempre antropofágica. É preciso não apenas que ler, mas sim degustar, engolir e depois excretar o que se leu. Além disso, vejo que há de se abandonar a hipocrisia idealista, pois ela corrói sadicamente o âmago de qualquer expectativa de mudança.

3 de novembro de 2006

CARNAVAL DOS EPILÉTICOS

Falei outro dia, aqui mesmo nesse espaço, sobre o estupro consentido. Alguns amigos vieram me objetar contra-argumentando que se é consentido, não se conota o estupro. Pois eu vos digo: ele existe e é muito mais comum do que se pode presumir. Está em todas as partes, nas esquinas movimentadas, nas raves emaconhadas, nos cocos dos cachorros. Esse ato hediondo (ou bárbaro, como queiram) é muito nosso e inerente ao brasileiro. A reeleição do presidente Lula é a encenação perfeita, flagrante, peremptória da permissão concedida ao estuprador.

Mas não é sobre isso que eu pretendo falar. Esses assuntos sobre eleições tornaram-se passado. C’est fini, como diria minha amiga Flávia que está de partida para Sorbonne. Que tenha sorte naquela terra sofisticada, com sotaques estilísticos e gastronomia esquisita. Leve muito feijão, pois o brasileiro sem feijão é o anti brasileiro. Eu quero chegar ao assunto dessa crônica sem mais digressões.

Fui ao cinema há alguns dias para assistir ao belíssimo filme “O Ano em que meus pais saíram de férias”. Fita de altíssima qualidade. Fotografia primorosa e roteiro cativante. Mas antes mesmo do inicio da história, me veio o tema dessa crônica à cabeça. Confesso que passei boa parte do filme emendando raciocínios e conclusões pertinentes para esse texto sem sequer perder um diálogo, uma ação. Tudo isso graças aos créditos que se impuseram gigantes bem a minha frente os quais citavam o apoio irrestrito da gloriosa Ancine e da nossa amada Petrobrás. Ah, se não fosse por eles, estaríamos nós ainda vítimas das fitas americanas e suas legendas mais rápidas que a Ferrari de Michael Schumacher. Pois eis o que eu gostaria de falar.

A Ancine foi criada com um intuito fatal de facilitar e incentivar a produção cinematográfica no Brasil. Mas o que ocorre é uma verdade mentirosa. Para uma produtora pequena ou média conseguir submeter um projeto entre os arquivos e escrivões que habitam essa fundação, é preciso um trabalho hercúleo, nababesco. O que dirá o meu amigo, mestre e o futuro grande cineasta do Brasil, Tiaraju Aronovich. Certo dia, ele nos relatou sobre sua epopéia para conseguir aprovar um projeto nessa lei de incentivo fictícia. É tamanha burocracia que nem compensa relatar aqui. Se eu o fizesse, reescreveria um novo “Os Sertões”.

Críticas a esse trabalho extremamente burocrático existem entre todos os artistas brasileiros. Mas eu quero atentar para outra realidade. A Ancine é uma obra genuinamente brasileira. Ela trabalha com esses paradigmas, por que ela é vítima do próprio brasileiro. Nossa burocracia existe para nos defendermos de nós mesmos. Não é uma Ancine, ou uma Lei Rouanet que nos impede de construir um desenvolvimento nas artes, mas sim o próprio brasileiro.

Resta aos nossos artistas praticarem o cinema de guerrilha. Onde os recursos são menores e também os orçamentos, mas não a arte. A arte não se precifica. Ela é o fruto de um estudo, de um trabalho. E não há burocracia mundana que derrube um sonho, isso se esse sonho realmente existir. E torçamos para que a Ancine saia de férias. Não apenas por um ano, mas por longos e epiléticos carnavais.

30 de outubro de 2006

PASSIVIDADE VOCACIONAL

Perante um júri popular inerte e uma platéia ainda mais embasbacada, a vítima declarava em plenos pulmões para quem quisesse ouvir, gravar e reproduzir nas mídias afins. Ela tinha a aparência frágil, um olhar manso, a voz aguda e baixa. Mas sua decisão ao falar era flagrante. Dizia então, a pobre senhorita. “Eu deixei. Eu quis assim.”. Diante de um alarido ovacionado, ela prosseguia. “Ele não tem culpa de nada. Fui eu quem provocou tudo isso.”. O juiz, na sua experiência quase egípcia, se engasgou com a própria saliva. O escrivão trançou os dedos de uma forma que nem uma palavra mais saia de sua velha máquina. A mãe da vítima, em estado de choque, foi levada ás pressas para o hospital mais próximo, enquanto o tio regozijava-se “Essa aí nunca me enganou”. Como se não bastasse tamanha pusilanimidade, a menina complementou com um ar patético, “Se houver de novo, eu deixo. Tantas quantas quiser”. O juiz encerrou a sessão com seu martelo definitivo, já sem paciência para escutar o resto. Terminou assim, sem um veredicto, sem a opinião dos júris. O réu saiu do tribunal caminhando sem que ninguém o tocasse. Foi pra rua fumar um cigarro de uma brasa torrida.

Essa cena acima é o que chamo de verossimilhança mórbida. Talvez não me entendam, por isso vou tentar explicar. A vitima, o réu, o júri, o juiz, a mãe, o tio, todos existem de verdade. Possuem pele, osso, cara e pêlos nos dedos. Cada um no seu universo, com sua história, seus traumas, suas alegrias, suas vidas. Fisicamente eles nunca se encontraram. O que houve foi um encontro de consciências, de almas. Creio estar sendo ainda evasivo. Tentarei ser mais preciso.

O crime em pauta é um estupro. Considerado hediondo pela lei e pelo senso comum. Desde há muito, tido como uma violação do bem sagrado dos limites de liberdade. Um estuprador é a escória social. Ele concentra em si tudo que há de mais pervertido e obsceno em um ser humano. Aqui ele seria perfeitamente condenado e levado para as celas imundas e abarrotadas de tarados em potencial. Mas esse criminoso saiu indelével, foi para a esquina fumar seu cigarro. A estuprada foi para casa com um senso de justiça insofismável. Afinal, se houve consentimento, não há crime. O estupro consentido é o crime sem criminosos.

Creio ter chegado ao ponto que gostaria. No ultimo domingo nós absolvemos com louvores o estuprador. E ele se foi acender o cigarro com a chama da nossa aquiescência, e a brasa brilhou como se fora uma luz na escuridão. E o estuprador fumou até a gimba o cigarro da nossa passividade. Nós, os estuprados, gostamos do que vimos. Sentimos o mesmo prazer masoquista da vítima supracitada. E ainda complementamos patéticamente: “Queremos mais”.

Agora não há juiz, não há júri que consiga impedir o estuprador de sair porta á fora sem maiores entraves. Pois, eu repito, no consentimento não há crime. Não nos importamos se nossa mãe história tenha tido um mal súbito no momento do sufrágio. A decisão está tomada e é irreversível e cruel.

Somos o povo já deflorado, que se acostumou com os estupros históricos e não nos chocamos com tal constrangimento. Essa idéia de crime e castigo, de culpados na cadeia é coisa do tempo dos nossos avós. Hoje em dia tornou-se tudo uma sopa única, massificada. E como tinha razão aquele tio sardônico. Esse povo continua o mesmo. Não engana mais a ninguém.

26 de outubro de 2006

DISFARCE E LEIA

Esse caminho pelo qual pretendo me enveredar é um túnel sem luz ao cabo. Uma experiência de quase morte sem oxigênio bastante para respirar. Normal seria prestar algum concurso público ou entrar em alguma grande coorporação. Mas meus genes e entranhas não permitem isso. Prefiro caminhar pela arte e, se eu morrer na sarjeta, seria patético, mas nada improvável. Tenho ainda a minha juventude para viver e essas idéias podem parecer idealismos delirantes inerentes à idade. “Com o tempo passa” diria alguma tia de crochê.

Hoje estou inaugurando um novo espaço virtual. Nele vou deixar um pouco sobre o que eu penso. Ainda nem faço idéia se encontrarei leitores. Aliás, essa palavra vem se tornando um palavrão, uma obscenidade. O camarada que chega a um grupo de amigos e comenta a ultima crônica do Jabor, decerto vai ouvir: “Ah, aquele que fala no Jornal Nacional”.

Eis o drama, meus caros. A verdade está dita, mas não serei prolixo. Vou tentar explicar sem ser auto explicativo (para o alívio de alguns). Os meios de comunicação de massa cozinharam os cérebros dos brasileiros durante 50 anos. O intuito dessa lavagem é ainda mais cruel. A TV é um salmo responsorial, onde o telespectador afundado em seu sofá faz o sinal da cruz a cada “Boa noite” do William Bonner. De carona com a TV, vem a Internet onde pipocam os banners, flogs e outros afins imagéticos. A grande rede teria uma tábua de salvação: a interatividade. Hoje o homem se vê diante do desafio de receber um impulso e responder na mesma força e proporção.

Desafio: essa é a palavra. Depois de décadas de passividade, somos impelidos a nos travestir de opiniões e colocar algo para o mundo. Cada um tem que ter a sua pose, o seu Marx de bolso. Mas eis o drama maior. O brasileiro não sabe ler, e, por conseqüência, fica mudo como uma estátua de Michelangelo diante do “parla!!”. Assim, vemos um grande lixo virtual produzido pela nossa massa iletrada. Aqueles que têm acesso à grande rede criaram uma língua que deve ser qualquer outra, menos o nosso Português. Escarram, execram sobre a nossa gramática. E o mais assombroso é que às vezes o fazem não por desconhecimento das normas, mas por uma questão de afirmação social perante os amigos.

Por isso foi criado esse hiato para ser lido com os olhos e com os dedos. Um espaço onde o brasileiro pode ser sim “O leitor” sem maiores vergonhas. Aqui falaremos de assuntos intrínsecos como sociologia, política, artes e até futebol. E você poderá (e deverá) deixar sua opinião. Mas, cuidado, acesse-o tarde da noite. Coloque entre os “Favoritos” disfarçando o nome, como “Safadinhas da net”. Não se avexe. Mas lembrem-se, ler é a arte de reler.

HIATO EM BRAILE

Aquilo que não se vê, se sente, se lê.